Introdução, Propósito e Aplicação
A qualidade de um exame citológico e anatomopatológico depende da boa execução nas três fases: pré-analítica, analítica e pós-analítica. A fase pré-analítica tem início antes da chegada do material ao laboratório de patologia e citopatologia, e a participação de todos os profissionais envolvidos é de extrema importância para que se tenha um diagnóstico final eficaz e assertivo.
Tipos de Espécimes Citopatológicos
A quantidade e qualidade das amostras são determinantes na precisão diagnóstica. Os espécimes citopatológicos dividem-se em dois grandes grupos:
- Obtidos por Punção Aspirativa com Agulha Fina (PAAF) ou por capilaridade;
- Obtidos a partir da raspagem de uma lesão ou de células que descamam naturalmente: compreendem imprints, raspados, escovados, lavados, além das análises de escarro, urina, secreção mamilar e líquidos cavitários.
Material para Exame Histopatológico (Biópsias e Peças)
Todo material destinado ao exame histopatológico deverá seguir padrões rigorosos de qualidade em todas as suas fases:
- Biópsias Pequenas: Fragmentos de lesões ou tecidos obtidos por biópsias incisionais (pele, colo uterino, etc.), "punchs", biópsias com agulha grossa ("core biopsy" de próstata, mama, outros), biópsias endoscópicas (estômago, cólon, pulmão, pleura), material de shaving e pequenas exéreses.
- Peças Cirúrgicas Simples: Espécimes resultantes de intervenções de pequeno porte: exérese de cisto, pólipos não pele, linfonodo isolado (exceto esvaziamento), ressecções cutâneas (exceto melanoma e ressecções > 3cm), lipoma, histerectomia simples, baço, apêndice cecal, vesícula biliar, mamilos hemorroidários, nódulo prostático, mamoplastia redutora, ginecomastia, ovário, tuba uterina, testículo não neoplásico, segmento ósseo e exérese de pele com ou sem marcação de fio.
- Peças Cirúrgicas Complexas: Obtidas em centro cirúrgico resultantes de intervenções de médio e grande porte e peças oncológicas (ex.: mastectomias, gastrectomias, colectomias, esvaziamentos ganglionares).
2. Propósito do Manual
Apresentar instruções sobre coleta, acondicionamento e preservação de amostras biológicas. Para transporte, consultar o POP MTMB-072024. Dar informações necessárias para a correta obtenção e preservação garantindo a máxima acurácia diagnóstica.
3. Aplicação
Este documento aplica-se integralmente a médicos, clínicas solicitantes, parceiros, clientes e colaboradores da recepção e equipe técnica do LAPAC Laboratório.
Citopatologia: Materiais e Coleta
4.1. Materiais Requeridos por Modalidade
4.2.1. PAAF (Punção Aspirativa com Agulha Fina) – Esfregaço
- 1 Colocar o paciente em posição adequada e confortável.
- 2 Identificar a lesão por palpação, fazer a antissepsia local, acoplar a agulha à seringa e fixar a lesão entre o dedo indicador e o médio.
- 3 Manter o êmbolo na posição zero, introduzir a agulha na lesão perpendicularmente à superfície da pele.
- 4 Promover forte pressão negativa no interior da seringa, deslocando o êmbolo para estabelecer vácuo, mantendo-o.
- 5 Efetuar movimentos de "vai e vem" com a agulha na lesão, em diversas direções e profundidades, mantendo a pressão negativa, até aparecer material no início do cone da agulha/seringa.
- 6 Soltar o êmbolo da seringa, desfazendo a pressão negativa, ainda com a agulha na lesão.
- 7 Retirar a agulha da lesão e comprimir o local com uma gaze.
- 8 Retirar a agulha da seringa com o êmbolo na posição zero. Puxar o êmbolo da seringa fazendo vácuo com ar.
- 9 Acoplar novamente a agulha na seringa cheia de ar para em seguida, empurrando o êmbolo, depositar a gota de material no centro da lâmina.
- 10 Preparo do esfregaço: Utilizar outra lâmina na mão direita, inclinada a 45º, e deslizar suavemente até a extremidade de modo a obter esfregaço homogêneo e fino.
- 11 Imergir as lâminas imediatamente em frascos porta-lâminas com álcool a 95% ou 70%, hermeticamente fechados (ou spray fixador).
- 12 Identificar os frascos com nome completo do paciente, data de nascimento, data da coleta e nome do médico assistente.
4.2.2. Raspados
Proceder a 2-3 raspagens suaves da lesão para evitar sangramentos. Extender de forma homogênea em lâmina de vidro limpa e fixar imediatamente em álcool a 95% ou spray.
Escovados
Aplicar escova na superfície da lesão endobrônquica via broncoscópio. Rolar a escova uniformemente sobre a lâmina de vidro limpa e fixar imediatamente em álcool a 95% (ou meio líquido para cell block).
Líquidos Cavitários
Antissepsia e anestesia até atingir a cavidade com seringa de 20ml. Acondicionar em frasco limpo, sem anticoagulante e sem fixador.
Importante sobre a Fixação em Citopatologia:
A fixação conserva a forma e a estrutura celular. Após retirada do organismo, a peça sofre autólise rapidamente. Amostras líquidas não devem receber fixador e devem ser mantidas rigorosamente refrigeradas (2-8°C) por no máximo 24h. Em temperatura ambiente, as células entram em degeneração e autólise celular irreversível, prejudicando a análise posterior.
Fixadores e Temperatura de Conservação
| Tipo de Exame / Amostra | Fixador | Volume / Proporção | Temperatura | Prazo Máximo para Envio |
|---|---|---|---|---|
| Citologia (esfregaço, raspado, escovado) | Álcool a 95% ou spray fixador | Imersão completa das lâminas em frasco porta-lâminas | Temperatura ambiente | Enviar o mais rápido possível; máximo 24h se refrigerado (2-8°C) em caso de impossibilidade de envio imediato |
| Citologia de líquidos cavitários | Não adicionar fixador | Mínimo 2 ml, máximo 500 ml | Refrigerado (2-8°C) | Máximo 24h; não permanecer em temperatura ambiente |
| PAAF – material sólido (esfregaço) | Álcool a 95% ou spray fixador | Imersão completa das lâminas | Temperatura ambiente | Enviar o mais rápido possível |
| PAAF – material líquido/cístico (centrifugado) | Não adicionar fixador ao líquido | Enviar em recipiente limpo ou seringa sem agulha, vedada | Refrigerado (2-8°C) — prioridade | Máximo 24h |
| Anatomopatológico – biópsias e peças simples | Formol tamponado a 10% | Volume 10x o tamanho da amostra; peça completamente coberta | Temperatura ambiente | Enviar o mais rápido possível |
| Anatomopatológico – peças complexas (mastectomias, segmentos de intestino, etc.) | Formol tamponado a 10% | Volume 10x o tamanho da amostra; peça completamente coberta | Refrigerado (2-8°C) se envio não for possível em até 2h | Máximo 2h em temp. ambiente; se excedido, refrigerar até o envio |
Observações Cruciais sobre a Tabela:
- As amostras devem ser fixadas o mais rápido possível após a coleta e o fixador deve cobrir totalmente a peça ou esfregaço.
- A maioria dos exames de rotina é mantida em temperatura ambiente, EXCETO: PAAF líquido/cístico e citologia de líquidos cavitários (obrigatoriamente refrigerados a 2-8°C), bem como peças cirúrgicas complexas cujo envio ultrapassar 2 horas.
- Materiais líquidos de nódulos císticos: necessitam de centrifugação prévia para preparo do esfregaço com o sobrenadante. Encaminhar ao laboratório em recipiente limpo ou na própria seringa (sem a agulha, com a tampa vedada com esparadrapo), devidamente identificada e em geladeira se não for imediato.
Anátomo-Patológico: Coleta, Fixação e Acondicionamento
A coleta das amostras para realização de exames anatomopatológicos pode ser obtida a nível ambulatorial ou em centro cirúrgico por biópsia simples, intervenções de pequeno, médio e grande porte e peças oncológicas.
Diretrizes Obrigatórias para Fixação do Anatomopatológico
PROIBIDO: NUNCA ENVIAR MATERIAL SOBRE GAZE
Não enviar o material sobre gaze. O envio de biópsias sobre gaze resseca o tecido, absorve o formol e impede a fixação uniforme, além de alterar a arquitetura celular e prejudicar gravemente o diagnóstico.
Prazo para Peças Cirúrgicas Grandes e Complexas:
Em casos de ressecções maiores (como mastectomias, colectomias e segmentos intestinais), as amostras devem ser encaminhadas ao laboratório em até 2 horas. Se não for possível o envio imediato, guardar em geladeira (2-8°C) até o momento do envio para retardar a autólise tecidual profunda.
Instruções por Tipo de Tecido e Amostra
Determinados tecidos e biópsias exigem protocolos individualizados de coleta, preparo e dados clínicos adicionais:
Pele
Em caso de vesículas ou bolhas, o técnico/médico deve retirar a vesícula íntegra e acondicionar a amostra em frasco adequado e identificado.
Biópsia para pesquisa de alopecia
O médico coletor deve realizar de preferência 2 "Punchs" da região a ser estudada, pois cada um será processado de forma diferente seguindo os protocolos para estudo de alopecia.
Linfonodos
O tecido linfoide deve ser bem fixado, pois sua cápsula impede a passagem de formol, notadamente em amostras maiores. Na macroscopia/coleta de linfadenectomia, recomenda-se a secção do linfonodo no seu maior eixo / transversal.
Medula óssea
A medula óssea deve ser acondicionada em formol 10% tamponado. O material é submetido à descalcificação e coloração de rotina HE e colorações especiais conforme a necessidade.
Biópsias ósseas
Fragmentos incisionais, excisionais, curetagens, biópsias por agulha e exéreses ósseas necessitam de descalcificação por meio de químicos (ácido).
Fetos e placentas
Fetos com peso de até 500g ou menos de 20 semanas de gestação são considerados peças cirúrgicas e devem ser colocados em frascos com formol tamponado 10% adequados à sua dimensão.
Mama
Segmentos mamários retirados por microcalcificações suspeitas devem ser encaminhados ao laboratório com a radiografia da peça ou agulhados.
Osso
Os segmentos, após fixação completa, devem ser submetidos à descalcificação, de duração variável conforme a dimensão e a densidade do osso.
Observações Gerais de Marcação e Requisição Médica:
- Avaliação de Margens Cirúrgicas: Havendo necessidade de avaliar margens cirúrgicas, linfonodos sentinela ou porções específicas, o médico cirurgião deve identificá-las por meio de fios de sutura com orientação detalhada no campo clínico da requisição de exames.
- Tipo de Biópsia: Especificar claramente se o espécime representa biópsia incisional ou excisão completa da lesão e qual a hipótese diagnóstica.
- Correlação Anátomo-Radiológica: Em lesões ósseas e microcalcificações mamárias, é imprescindível o envio dos exames de imagem correspondentes (Raio-X, TC, RM, Mamografia).
- Topografias Distintas: Biópsias retiradas de sítios anatômicos diferentes devem sempre ser acondicionadas em frascos distintos e rotuladas individualmente.
Etiquetas dos Frascos de Amostra
Proibição do Uso de Caneta Comum
É estritamente proibido o uso de caneta esferográfica comum. Eventuais vapores ou vazamentos do fixador (formol/álcool) dissolvem a tinta e causam apagamento total dos dados, inviabilizando a conferência segura da amostra.
As etiquetas de identificação externa (embalagem primária) deverão ser impressas eletronicamente no computador ou escritas com lápis preto grafite de alta aderência.
Todo recipiente deve possuir na superfície externa etiqueta adesiva legível e de material que garanta a legibilidade permanente, contendo obrigatoriamente:
Transporte, Medicina e Segurança
Diretrizes de Transporte
Para as diretrizes completas de transporte, embalagem e rotulagem, consulte o MANUAL DE TRANSPORTE DE MATERIAL BIOLÓGICO (cód. MTMB-072024).
Este manual mantém as especificações técnicas de coleta e preservação, enquanto a logística segue o POP corporativo e a ANVISA RDC 20/2014.
Biossegurança e Medicina
Ao realizar as atividades descritas neste documento, deve-se observar as diretrizes estabelecidas no Manual de Biossegurança do Laboratório LAPAC (cód. MB-012024) e no MANUAL DE PROCEDIMENTO EM CASO DE ACIDENTE COM MATERIAL BIOLÓGICO (cód. MPCAB-072024).
Treinamento obrigatório conforme a POLÍTICA DE TREINAMENTO DOS COLABORADORES (cód. PTC-012024) e registrado segundo o MANUAL DE TREINAMENTO DOS COLABORADORES (cód. MTC-012024).
Definições Aplicadas:
- Manual:
- Conjunto de normas, procedimentos, atividades e outras orientações cumpridas por todos os colaboradores.
- Não Conformidade (NC):
- Qualquer desvio em relação aos requisitos de recebimento, identificação ou acondicionamento que possa comprometer a qualidade diagnóstica.
- Sistema Target:
- Sistema de informação utilizado nas atividades técnicas e laboratoriais.
- PatolGest:
- Sistema integrado de gestão de POPs e qualidade utilizado nas rotinas do laboratório.
Referências Bibliográficas e Normativas
- Manual de Boas Práticas em Patologia / Emílio Assis. São Paulo: Sociedade Brasileira de Patologia (SBP), 2020.
- Manual de técnica histológica de rotina e de colorações / Katharine Raquel Pereira dos Santos [et al.] - Vitória de Santo Antão, 2021.
- Manual de procedimentos básicos em microbiologia clínica para o controle de infecção hospitalar: Módulo I / ANVISA / Ministério da Saúde, 2000.
- PATRAQUIM, A.; C. Controlo de qualidade do processamento histológico em histotecnologia: a realidade de 12 hospitais portugueses. 2015.
- Recomendações da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML): coleta e preparo da amostra biológica. Barueri: Manole, 2014.
- Manual de vigilância sanitária sobre o transporte de material biológico humano para fins de diagnóstico clínico – ANVISA 2015.
- Caderno de referência 2: citopatologia não ginecológica / Fátima Regina Gomes Pinto, Letícia Maria Correia Katz. Ministério da Saúde / CEPESC, 2012.
- ANVISA - RDC Nº 20, DE 10 DE ABRIL DE 2014 - Regulamento sanitário para o transporte de material biológico humano.
Suporte Técnico aos Médicos e Clínicas
Tem dúvidas sobre conservação de peças especiais, agendamento de punção guiada ou fornecimento de frascos com formol tamponado? Fale direto com nosso setor técnico.
Fornecimento de Frascos
O LAPAC disponibiliza para clínicas e consultórios parceiros: frascos com formol tamponado a 10%, caixas porta-lâminas, fixadores celulares e requisições de exames.
contato@lapaclaboratorio.com.br
Checklist do Médico Coletor
- Fixação em até minutos após a retirada cirúrgica.
- Formol a 10% cobrindo 10x o volume da amostra.
- Nunca colocar materiais histopatológicos em gaze.
- Identificação legível no frasco (computador ou lápis preto).
- Histórico clínico, hipótese diagnóstica e DUM preenchidos.